Vampe

Somos as abortadas pelo sistema
curvilíneas pecadoras
Manchadas, por mais de 365 dias,
Mordidas pela maçã e pela serpente.

Somos as putas sincretistas
dos olhos oblíquos,
Que transmorfam dissabores
em imponência.

Somos milhões de Vênus
cultuadas enquanto souvenirs,
Porém discriminadas, oprimidas
e mutiladas em braços e cérebros
Pelo outro e por si mesmas.

Somos Joanas, Marias e Margaretes
orbitando debaixo de um mesmo Sol,
cuja fragilidade do sexo
não pode ser metida
no comprimento de um vestido.

Mulheres, bruxas do Mundo,
As que amaldiçoaram a raça humana
e cujos ventres a hospeda
com o feitiço da vida.

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Favo

Você é a marca de café

neste sofá obsoleto

O sussurro que se dissipa…

Um fim de tarde, cafuné,

O último soneto

que um beijo antecipa.

Frisson! O súbito torpor

que assenhora a aorta.

O astuto senhor

desliza pela porta…

Na janela, alvorada.

A lascívia retornou

Entrego-me, devorada,

por parte daquilo que sou.

Prudência

Em meio ao desespero lunar
a manta cobre o rosto, sempre defeituosa,
Raios atravessam, racionalizam-se.

O cheiro do corpo
desliza pela janela, indolente,
Flores invisíveis me decompõem.

Um uivo distante, o espelho
seus dentes ecoando naquilo que nos perde
breve instante: reflete.

Cruel queda! Jogo-me à cratera
Último relance, quimera
me vejo, infinitamente.

Ademonia

Grama nos dentes
a queda azul,
reflexo vazio
meu corpo nu.

Acalme o cirandar,
cale as crianças:
os frios dedos
descendo a jugular…

Dê-me passagem,
grito oliva,
efeito placebo
corrompe-espírito.

Encomenda

Invada o meu templo
Viola meu ápice
contradança, ínfimo tango,
implanta o desassossego.

Vem, assalta meus dedos,
pai de todos medos,
pesadelo vespertino,
Esses lençóis suados…

Não há qualquer exemplo
sequer suja teoria
que nos ponha apar:
tece o Destino.

Engana, amazona sabedoria,
Toma do meu cálice
faz-me minha
Ah, o insólito beijo…

Ecoa, transponha meu líquor,
domina mil flores
canta minhas dores,
Cala meu silêncio.

Peste Negra

A Doença inevitável
entrou por debaixo da unha
nada, porém, mais lamentável
fez-me testemunha.

Reproduziu-se, em tanto,
Mal podia respirar
Febre de amianto
num copo de guaraná.

Viajei para Suíça
tossindo metro a metro
Não houve qualquer justiça
que me concedesse o cetro.

Aconselharam-me a não desistir:
Tapei meio-Sol com peneira!
(De que adianta tanta asneira
Seja Homem, Pinóquio ou quati?)

Algemei-me:era de lei
entre as esquinas da casa,
Por madrugadas convulsionei
porta, sofá… pés na brasa.

Num sonho minha avó
curou-me desta chaga:
“Querida, antes só
que mal-amada.”

Lobotomia

O branco dos olhos

é o mesmo da alma,

tal calma esquizofrênica

de abutres em voo.

 

Mundano compasso de tempo

escorre pelo nariz,

Cheiro o vento

tumor viscoso e vermelho.

 

O som se afoga, dissonância,

(águia amorfa feita

de guerras e vácuos)

e cicatriza, fluorescente.

 

Mãos de nuvem

armam em mim tornados

valseando Vivaldi

incansavelmente.