Route

Eu acordo. O teto simétrico me encara, suas severas sombrancelhas no canto do quarto. Minhas mãos piscam. O dia me enclausura, novamente. Busco forças para romper a relação com a cama, mas há uma inércia que se apodera de tudo: o piso morno; os fios avulsos; a inanição de minha carcaça sobre meu caixão, repleto de espuma e penas. Nele ficaram todas as fracassadas tentativas de voos mais altos. Cabulo-me.

Alto torpor. Tento me sufocar com o travesseiro, entretanto, ainda sofro de uma infindável sensação de incapacidade. Seria mais fácil deixar que o mofo das noites mal dormidas me consuma. As penas rastejam pelas paredes. Tropeço em todas os insanos ensaios de me dar um fim e em qualquer semântica que faça de minha vida uma incógnita respeitável.

Há um insuportável e esmagante sentimento de que tudo foi abandonado. Imóvel, dentro um veículo em alta velocidade. Não há destino. O vento assola minhas narinas. Fervente atrito com todo o vazio que me habita. Não tenho mais forças para lutar. Satelites me orbitam. O mundo se veste, a costura do lado errado. Fecho os olhos. Abandono meu corpo, lentamente. Deixo que se dissolva ao final da tarde. Deixo que queime…

Eu acordo.

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Semântica do Amor

Houve um momento de hesitação até um o som se dipersasse pelo infinito. Uma singela explosão, de se encherem os ouvidos. O homem olhou para trás, contemplou as possibilidades que se formaram em sua imaginação, e partiu. O sol vagarosamente se despedia, seu calor dançando na atmosfera. E ele também: partiu em passos de salsa pela avenida.

León deixou que uma gota lhe escapasse, preciosíssimo prisma de seu ser. Aquele dia estava sendo mais difícil do que qualquer outro. Aos poucos, notou que o nível de obstáculos para se superar ao longo de suas 18 horas diárias iam se complicando em algo parecido com progressão geométrica.

Havia uma parte de seu cérebro que lhe negava qualquer abstração, mas que, simultaneamente, tropeçava em toda e qualquer oportunidade oferecida ao acaso. A tela branca do computador parecia sugar-lhe as córneas, ou juntar-se a elas numa estranha superfície irregular.

Escrevia palavras soltas e as apagava em seguida. Parecia brincar com a memória a todo instante, como se um alzheimer lhe corroesse até mesmo a ponta dos dedos. Não conseguia escrever a maldita carta. Em pensar que Celso insistia tanto, para que lhe escrevesse à moda de Castelo Branco, ou com uma similaridade que desse à memória um gosto casimiriano.
– Ao diabo! – Exclamou ele.

Não deveria ser ninguém além de si mesmo. Por que mil infernos Celso não se contentava com o poema da batatinha – e os artísticos carimbos de coração feitos com batatas? O pleonasmo das solanáceas era o fator multiplicador de seus sentimentos. Celso não conseguia entender as sutilezas, e aquilo matava toda a mísera sensibilidade poética de León.

De repente, se pôs a pensar: Por que gostava tanto daquele homem? Depois de doze anos, talvez os motivos já houvessem se perdido no caminho. A comodidade acaba afundando sua nádega ao chão e deixando uma marca difícil de se preencher. Mas… Não, devia haver algo. Afinal,  tanto tempo não é para qualquer um. Pelo menos, é o que sempre se diz. Ele gostava de acreditar na sabedoria popular. Era como alguma espécie de cura para todos os males do mundo.

Decidiu que estava velho demais para ser meloso. Era simplesmente ridículo e inaceitável. Escreveu, por fim, três palavras. Elas teriam mais sentido do que quaisquer outras. Elas expressavam todos os momentos pelos quais passaram, fossem bons ou ruins. Aquelas três maravilhosas e libertadoras, cheias de um bizarro encanto que aferrenha o mais plácido dos corações. Colocou em letras grandes e clicou em enviar.

Então, correu escadas abaixo. A cidade lhe pareceu divina por um momento, regada por aquele infernal calor que comprimia suas vistas. Se sentia, finalmente, livre. Uma refrescância lhe percorria o corpo cansado – seria o ar condicionado? -, enquanto subia pelo elevador. Do alto do edifício, via Celso perfeitamente. Poucos centímetros e algumas estruturas de segurança os separavam.

No escritório, a máquina de Celso ressonou e vomitou um papel. Excitadíssimo, agarrou-o com as duas mãos. Quando seus olhos correram pelo objeto em suas mãos, fechou-se numa carranca imperdoável – até ouvir a gargalhada de León. Abriu a janela com violência.

Houve um momento de hesitação até um o som se dipersasse pelo infinito. Uma singela explosão, de se encherem os ouvidos. Repetiu os escritos:
– Tome no cu!

O homem olhou para trás, contemplou as possibilidades que se formaram em sua imaginação, e partiu. O sol vagarosamente se despedia, seu calor dançando na atmosfera. E ele também: partiu em passos de salsa pela avenida.

Devaneio

Fechou a última pasta com um sorriso de resignação. Atravessou o escritório em passos largos, soltando o tênue aperto da gravata. Deslizou pela rua, admirando os absurdos estilhaços de final de tarde, que morriam majestosamente refletidas nas janelas dos metrôs e entre as irregulares linhas formadas pelos edifícios metropolitanos.

Quando disparou-se pela ferrovia moderna, a maquinaria deu lugar a uma mulher estonteante. Não havia nada de peculiar naquele corpo, exceto sua própria existência. Carlos não pôde conter o singelo abate que tomou seus vagos pensamentos e transformou aquele momento na contemplação suprema de uma arte comum.

Eram curvas censuráveis reveladas sutilmente pelo longo vestido preto de alças finas. Era o magro contorno do seios, e a força como as mãos pousavam astuciosamente no ar. Era o lento cruzar de pernas, marcando o tecido; um emaranhado de fios castanho-claros que caiam preguiçosamente ao redor da face triangular.

Tentou mover os olhos para outro lugar, e soltou um sofrido suspiro. Ela falava ao telefone num tom baixo cantante, porém, com um quê de metálico. Ela se arrastava pelas partículas de poeira e podia senti-la infestando sua pele. Percebeu, finalmente, que continuava a mirá-la pelas portas envidraçadas da estação. Seu olhar encontrou-se com o dela, um indiscreto azul. Ele era míope, mas tinha certeza disso.

Tornou em sua direção, tomado por insistentes sussurros inconscientes. Então, ela sorriu. Uma amarga nostalgia fez com que o coração de Carlos enfraquecesse. Fitaram-se novamente. O sorriso dela era como olhar o universo: complexo, solitário e absolutamente lindo. Estava irremediavelmente seduzido.

Luísa, do outro lado da estação, deixou seu riso escapar – podia imaginar as linhas de seu próximo poema enquanto ignorava as ordens de seu chefe babaca. O silêncio esmagava seu juízo em uma dança suave. Espreitou-o pelo canto do olho, tentando adivinhar com que nome seu rosto poderia combinar.

Quase podia sentir a aspereza da barba que se estendia, rasa e indolente, como um tapete de mistério pelo rosto quadrado. Gostaria de prender margaridas ali. Havia um tom longíquo na partitura de seus lábios, um inalcançável paradoxo. Os ombros largos, relaxados contudo precisos pixels no contorno do corpo como as bordas de um cartão postal. Talvez falasse com sotaque inglês?

Percebeu, por fim, que também estava sendo avaliada e cruzou as pernas desajeitadamente. Ele jogou uma mecha ondulada para trás da testa num firme movimento. Havia reflexos bronzeados em meio ao negrume do cabelo – esses mesmos preencheriam seus cinco próximos finais de semana em devaneios. O vestígio daquelas digitais… Tremia, enquanto fingia falar ao telefone: dava conselhos a si mesma à medida em que se encantava pelo óbvio charme do homem a sua diagonal.

Ele era músico nas esquinas apertadas dos seus sonhos. Ela, poeta dos incógnitos cômodos vazios e dias chuvosos. Seus olhos fizeram amor, refletidos no vidro e em si mesmos. Houve um relapso temporal que se prolongou dubilmente. Estavam sentados lado a lado, num lânguido contato visual. Os dentes de Luísa, brancas constelações, subitamente rasparam os lábios precoces de Carlos. Ele, dominado por uma incrível fluidez que alcançava todo o cenário, arqueou suas costas e, apanhando os cabelos da nuca dela, aprofundou aquele insolúvel crime…

O sereno murmúrio contra os trilhos embalou o despertar. Colunas de metal perfuraram as vistas. Luísa piscou, com um sorriso patético no torcer dos tornozelos. Carlos jogou a cabeça para trás, atingido pelo projétil letal. Ela sentou-se no metrô, ainda entorpecida, lançando mão a uma última memória: nada além de seu fantasma, suntuosa colisão.

Catalepsia

Quando se tece o manto, as pálpebras incontrolavelmente mofam.  Insolúvel umidade na qual mergulham os pesadelos. Debaixo da cama, um novo mundo range suas soleiras, sempre abertas. Demônios arranham as tábuas, adentram pelos ouvidos em ruídos que se amplificam pelos tecidos, desdobrando-se em sincronizadas cacofonias. Você treme. Pode sentir uma respiração fria atravessando o cobertor, entrando pelos espaços dos seus dedos do pé.

Sua mente se expande e você perde a dimensão espacial dos objetos. Navega através dos microespasmos nervosos que solidificam pontes em seu cérebro. Há uma letargia que se espalha, estranho vírus, por toda a parte. Sua respiração começa a se entrecortar, imersa em um fundo vinho. Pode ouvir a onda de choque aquecido através da expansão supersônica do ar, que vem de algum lugar dentro de si mesmo. Pequenos estalidos ao redor de sua face pré-adormecida.

Já não tem mais tanta certeza de que trancou a porta. Na verdade, pode sentir uma corrente de ar vinda naquela direção, mas não ousa abrir os olhos. Há um leve ardor em seus cotovelos e você subitamente consegue imaginar um contorno de maxilar. Sacode a cabeça, nega a imagem e a si próprio.

– Não é real, não pode ser real.

Um insistente sussurro ecoa, ganhando poder. Você pode sentir a vibração das moléculas enquanto o rumor se transforma em algo próximo do ensurdecedor, imponente rajada de vento que afasta toda a sua coragem. Então a porta se fecha, num estrondo que pareceu destruir tudo ao redor; seguido de um perturbador silêncio. De olhos sempre fechados, você sente um arrepio intenso percorrer toda a extensão capilar, abandonando uma agonia atrás de seus pulmões. Mesmo sem fazer uso da visão pode pincelar, como Edward Munch, o grito que lhe possui os lábios entreabertos – a maldita respiração o trai. Involuntariamente, você se contrai. Pode ouvir o surdo murmurro de um idioma proibido. Sabe que a conversa é direcionada a você e vislumbra as córneas avermelhadas, as veias cor de musgo saltadas para fora.

Pronto. Você está dentro. Todos os demônios o espreitam. Sua visão é baixa, contudo pode entender o contorno de seu próprio nome numa enorme faixa acima de sua cabeça. Sente que a rígida passagem se fez. Sabe que está minuciosamente inserido em si mesmo, em um recôndito da mente que diria ser inalcançável. Os passos deslizam ruidosamente através do líquido raso, superfície dos pensamentos que não deve emergir.

Pares de olhos recaem sobre seus passos, brotando como flores de lótus em meio a imundície cotidiana: montanhas de lixo amontoadas em estratégicas esquinas. Você tem uma agulha em mãos e estoura uma das bolhas oculares com óbvia curiosidade. Um enorme estrondo ecoa, inflamado, e preenche o espaço de um denso nevoeiro vermelho. Violam suas fantasias, expulsando os delírios monótonos pré-programados. Rasgam suas entranhas, comem um pouco de sua fome e se possível, tiram a cobertura de seu outro eu – que vive esperando por essa oportunidade de ouro todas as noites.

Seu corpo lentamente se tinge à medida em que avança pela rua de pedra. Nas janelas sombras ganham formatos e um estranho zumbido, como se alguém houvesse abandonado uma tevê ligada sem qualquer programação.  Você, levemente confuso dentro do cenário sombrio, procura algum lugar em que possa se esconder. Pode ouvir os passos ressoarem em algum lugar bem atrás de suas ancas. Você sobe a escorregadia colina, ciente de que não pode mais voltar – não há mais nada além da escuridão de onde veio. Abre os portões do labirinto, levemente enferrujados.

Como estava ali? Você queria, apenas, sair de seu próprio corpo. Experimentar uma projeção astral, talvez dar uma espiadinha em algum outro sonho. Estava cansado de viver 365 dias dentro de si.

E eis que, em pleno devaneio, um flash percorre o horizonte negro. A imagem sofre uma distorção de cores momentânea, e pode jurar que sentiu um riso ecoando em sua espinha, mais parecendo um grunhido visceral, como se algo maligno estivesse mais e mais impregnado ao ar. Novamente, sua mente se põe em estado de pânico. Alguns passos mais. Há uma placa sem qualquer escrito, rebuscada em sangue. Você pode ver o cheiro da insanidade.

Há várias árvores mortas a cada curva sugerida pelo caminho. Em algumas, você pode ver as pessoas que abandonou. É inevitável um suspiro ou outro. Pensamentos escoam através das paredes de folhas secas, ganham vida. Você pode topar consigo mesmo a cada nova escolha, direita ou esquerda, ou até mesmo quando resolve atravessar os imponentes galhos entrelaçados.

Seu corpo está ligeiramente mutilado. O sangue, antes grotesco, flutua pela tez insolentemente. Uma infinita tensão se apodera de seus membros. Um golpe é desferido e atinge sua orelha. A dor lancinante faz seu coração disparar, como se o próprio pudesse sair a galope. Você sabe, instintivamente, que o par de olhos demoníacos que pousam sobre suas omoplatas são seus – como todos os demais. Sob seus pés a trepadeira avança, interminável, segurando-a como se tivesse dedos. Num puxão grosseiro você se liberta e inicia uma corrida contra si mesmo. Há um denso nevoeiro a sua frente, um cheiro de podridão que avança ferinamente contra seus instintos mais primordiais.

Dentes pontiagudos avançam cada vez mais famintos. Pressente uma mordida lançada, como um ritual, a alguma parte de sua cabeça. A dor ressoa junto a sua respiração e passadas. Tudumptudumptudmp… Estão tentando comer seu refúgio. Sente dentes, quadrados, rasos e pontiagudos raspando sua têmpora esquerda. Você se vira, subitamente pronto para se entregar às trevas. Há um grunhido repetido que o lembra de uma canção que sequer sabe de onde veio. A superfície se rompe, porém não há dor, apenas um resquício de fascínio pela entorpecente sensação de se perder.

Um buraco se abre, e você é sugado para outro moinho, como um pesadelo que se segue, infindável, entre soluços miseráveis. Ainda que nade, não pode escolher um caminho além daquele o qual a monstruosa maré lhe arremessa. Suas memórias lhe atingem, uma sucessão de pancadas deturpando todas as suas barreiras de uma só vez. Está nu, atravessado por sua própria vergonha.

Foi sugado ao fundo. Ali, figuras amorfas avançam em sua direção. Você pressente o fim. Não há para onde fugir. Sabe que alguém está aumentando o volume da tevê, e seu corpo todo salta. Uma insucessão de eventos perdidos. Entre eles, você vê desfocadamente, milhões de si mesmos – em diferentes idades, momentos, e até mesmo aqueles que nunca teve oportunidade de conhecer: os vários outros.

Um clamor ilaquea todo o espaço. Pode sentir todo o seu sistema nervoso em colapso: em fuga, você alcança um ponto mais distante. Um holofote de luz recai sobre seu deplorável corpo, e você tem um breve segundo de transe. Pode sentir a retina sutilmente desviada para fora de sua visão de primeira pessoa. O infinito escuro a frente nunca pareceu tão nítido. Nuances, sombras e ecos ondulam aos arredores. Então, visualiza a corda, que se estende até os céus.

Tenta escalá-la, ignorando as incessantes tentativas de trazerem-no para baixo. O brado vindo do chão está cada vez mais alto. Risadas e sussurros crescem, junto ao maldito ruído que acompanha os lados de seus tímpanos.

– Junte-se a nós!

– Mais um esquecido!

Você sabe que a corda está prestes a se romper. Um sorriso escancara sua face distorcida. A cada avanço, sente o peso recostar-lhe. Precisa acordar, porém uma terrível modorra cresce pelos membros. Eles irão, definitivamente irão…

E seus olhos pendem junto à penumbra. Os braços atrozes descaem junto ao abismo. Você sabe, nunca mais poderá voltar ou ser o mesmo. O caos lhe pertence agora.

Lótus

Como o fantasma que vi, algo morre hoje. Transcendem as lágrimas sem nunca arrancares o pior de mim. Derrete o rímel, na dança que me propões. Passos de ácido, a solidez de meu karma. Não sei dançar. Talvez jamais saiba.

És confidente porque tua deixa quebra minha aorta. Uses o cinto, querido. E nunca te permitas segurar por nada menos que a gravidade passional, a segurança da caverna rouca que em teus braços me prostra. O silêncio de meu grito, minha insensatez. Me desfaço, me descalço… não me basto.

Encolhem nossos dedos porque o destino aperta o laço. Com o mesmo, me suicidas. Falta-me o oxigênio de tua boca, o desespero morno de teus dedos sob a Lua. Pegue-a, leia minha alma, amor, enquanto tremo. Estarei sempre tua, contra teus ouvidos. A ti me entrego, e me enterro.

Oásis

       Algo flutua sob meus sapatos: os restos de minha dignidade, provavelmente. Estávamos no fim do mundo. Ruínas enfeitavam a esquina redonda. Uma tempestade de areia se formava em nossos umbigos deteriorados, querendo se unir a imensidão bege.

       Uma tensão corria pelas vestes. Ambos nus perante o silêncio, esqueletos desenhados em túnicas. Subjulgados por nós mesmos, pelos cotovelos. O que resta na mente são visões de raios infravermelhos que explodem na atmosfera seca.

       Sabemos: estamos condenados. Tragam-nos um pedaço de lucidez. Uma dose, dois dedos, de gritos boreais. Permitam-nos comer esses cérebros, geniais desastres, estorvos iconoclásticos. Deixem-nos, especialmente…

       Zunem tecido e derme. Exclamo pelo diafragma, engolida pela intensidade das sensações. O véu de vidro despenca. Ondula, perdido no ar. Assisto-o congelar em direção ao Pólo Sol, enquanto o movimento certeiro me atinge. Mercúrio, derramado em minhas pálpebras.

       Existe uma placidez em nossas respirações nada adolescentes. Meu nome parece um monumento, agora. Eternizado nos lábios dele, rachados, pela experiência, tão lindamente:
       — Saarah.

       O som se dispersa. Voo livre, destino ao esquecimento. Ao deserto em seus olhos. Ao oceano em nossas mãos.

Requiem do Amor

O relógio batia meia-noite, a hora proibida. Entre a penumbra da noite eterna, eu era um camaleão da cor do silêncio. Enfiado entre o beco da porta, sussurrando baixinho aquela música que Susan sempre cantava antes que eu dormisse.
Como uma folha de papel, meu âmago dobrava e desdobrava. Os olhos de uma letargia infinita. Passei pela entrada. A íris esmeraldina encarava-me. O perfume de menta ainda impregnando seus lábios entreabertos.
Passei a mão pelo véu que a cobria, arrancando-lhe daquela prisão eterna.
Tão doce… Tão pura.
Sem pensar duas vezes, lhe invadi os lábios, sedento, o herói do último ato. As pálpebras fechadas confirmavam o prazer que sentia, eu sabia.
Arranquei-lha as vestes com a mesma faca que cometi o crime, beijando-a sempre, como nunca havia deixado de ser. Nos fiz um, lentamente. Seu corpo ia sugando o pouco calor do meu em parcelas exigentes. A excitação revestia meu ser, cada vez maior. O sangue manchava meu corpo e o amor profano que nutria por ela, nunca antes revelado.
A garganta tremia, num nó interminável. Abracei-a contra meu corpo, beijei-lhe ternamente a bochecha e passei a mão por seus olhos, antes de sussurrar:
— Boa noite, minha querida irmã. A melhor de todas.