Memorial de um Sati

Há um desconhecido vazio que insiste em habitar minhas entranhas. Há um silêncio, distante e vinho, que cerca meus lábios. Beija-me, para que saiba que lhe amei. Enreda meu estranho ser, suas digitais afogadas em meu tecido. Trance elogios, enraíze-se em meu cérebro já expirado. Torne cada simples ato em uma ode. Eternize-me com véus quentes de nostalgia cítrica. Faça da bruxa uma repulsiva deusa, batize todas as insanidades com este poço de lágrimas.

E, antes que se preencha, deixe-me. Suspenda o coro. Que a cômoda escuridão possua o recipiente e, finalmente, pacifique-me. O horizonte lentamente se aproxima. Minha voz, definhada, adormece junto às pálpebras baixadas. Beija-me, uma última vez.

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Alforria

Deixou o Sol lhe queimar. Os raios atravessaram seu estômago, pintaram o fundo de sua íris. Dezessete graus, cinco pessoas, o ar. Tudo lhe causava um certo desconforto, como o poema de Poe. “Nevermore”, e seu corvo grasnava, rasgando um pedaço de si, abominando seu tumor. Porque, sim, todo humano o tem, um Karma, uma escuridão que é absorvida pelos que o cercam, ainda que em níveis diferentes. Há um cheiro de doença que insiste, ralha, transgride os limites. Uma barreira intermitente, rosas mortas nos umbrais – todas as etapas de uma vida.

O sino da Igreja, um longínquo bater de asas no oceano. Cada singela rachadura no tempo-espaço: a construção de uma memória. Cores flutuavam pelos dedos dele, indecorosas, atrevidas. Ácaros estranhos ingressavam entre as sobrancelhas, a poeira que antecede a cri(-i, +em)ação. Um ímprobo suor, o sussurro que coçava em seus cotovelos. Imagens, as sombras. A estranha perspectiva de um encontro que nunca aconteceu. O Sol, queimando. Havia sangue em todos os seus desejos.

Se rendia a si, o tumor sem face, o rei de ninguém. Escorria, chovia pelos poros. Pensava em dominar o estranho. Assumia seus olhos, adentrava seus comas. O Sol, oh, o Sol. Refratava toda a insanidade, desnudava seu negrume, expulsava a praga.

Normalizou-se.

Efeito Joule

Uma agonia me sufoca. Ouvidos de isopor rasgam o asfalto, meu pulso acelera. Pupilas no ar, discos pretos com microscópicos pixels em azul spyboot. Estou alterada, e respiro minha suposta invisibilidade. Paganini assalta meus sentidos, vindo de algum lugar além da explosão cósmica. Vozes fritam meus calcanhares: estou…fui. Talvez.  Corro com os indicadores, caio de gengivas entre as ogivas. Corega escorrega. Meus flancos choram tripas de vídeo cassete, e vejo você, apagando-se em verde e preto.

Seus olhos de Frankenstein eletrocutam minha coluna corolítica, lombada esclerótica, fribrocartilagem caótica. Um curandeiro, chame depressa. Sinto a convulsão torcer meus dentritos; morder meus fundilhos. Chame um parteiro, pois nasce hoje, oficialmente:

Alucigata. Acinufada. Alucinata. Alucinada. A luz? Se nada…

E Clip-se

O mundo, sempre tão engraçado. Tão exótico na sua simplicidade, tão… selvagem. O que não pode ser? Tudo contém espírito, uma aura que te arrebata ou causa apatia. Ou mesmo nem cause nada: nesse caso, não te preocupes. O tempo cuidará disso.

O incrível é quando consegues encontrar um espírito selvagem. Sabes quando algo te toca, algo mais que os dedos. Um olhar ferino, cujos detalhes quase andem sozinhos. Um flutuar existencial, um certo vácuo que cerca a delicada película de contorno.

Sabes que topaste com o espírito selvagem quando sentes o cheiro do destrancar, aquela água que entrou pelo ouvido não se sabe quando. Um escorrer de morfina. Um sépia, inequitude. Sabes porque te põe de insônia numa quarta, provoca os cotovelos, martela teus joelhos enfermos.

Quando encontrares, deixes levar. Um dia o espelho te será diferente. Não te apresses. Afoga, se necessário for. Não há forma, sequer benefícios na resistência. Sucumba-te a ti mesmo.

Tantálio, o Otário – Parte I

Tantálio estava cansado de sua transição. De ficar de olhos fechados, enquanto parte de si não suportava a realidade em que vivia e os dialogismos subsequentes do polêmico sistema capitalista. Seus devaneios e as novelas dos canais abertos o deixavam atônito. Claro que não tinha dinheiro para trocar o par de antenas, afinal, uma cirurgia andava cara demais – mesmo financiada pelo SUS.

Coçava a barba pseudo-intelectual deixando que os pelos dessem-lhe nós no cérebro. Levantou os pés no travesseiro: quando era mesmo que sua cabeça parava de dançar valsas russas? Sua lordose gemeu, encolhida no sofá de dois lugares. Percebeu que cheirava a surdez de seus dias perdidos entre as lufadas de seu Malboro meio molhado de baba de cachorro.

É, ele tinha um cachorro, desses que latem de vez em quando para não terem seus corpos enterrados no quintal; desses que comem ração sabor vestígios de tabaco com carne de trinta – de quinta, deixou-se na feira; desses que dão maravilhosos conselhos quando se está rolando com ele bêbado pelo chão do lavatório:
— Humano patético – ouviu Tantálio certa vez, e não sabia se era o cachorro que estava lhe fazendo uma crítica, ou se era ele quem havia dublado a boca do cachorro um recado para si mesmo. E ficou tão pasmo que só restou chorar em cima de seu vômito.

Levantou no dia seguinte a esse com conjuntivite. Não visitou o médico porque seu convênio não cobria. Aliás, ele próprio não se cobria, pois de olhos colados como diabos ia vestir as roupas e ir pro trabalho? Saiu tropeçando pela casa pequena e abarrotada de contas e móveis semi-usados. Xingava alto a cada tropeção, ouvindo um estalo: era a coluna ou a casa que estava se quebrando?

E de repente, se pôs louco: dançou em torno de si enquanto cantava Charles Aznavour no que julgava ser francês. Mais parecia um bezerro arrastado para a masmorra, o coitado. Bateu o dedo mindinho na quina, e a música logo virou mais uma sessão de elogios mais criativos que sua pequena mente podia inventar. O cachorro foi recostar-se nas pernas cambaleantes do dono. Tinha os olhos também fechados.
— Não estou sendo morto por ele. Isso é fantástico. Estou matando o trabalho! – Ele se alegrou, ainda que os olhos não parassem de lacrimejar. – Com um calibre quarenta e sete, Picasso! Finalmente tenho o controle, esses bastardos!

Resolveu levar-se para passear com Picasso. Iriam ao museu, talvez. Até mesmo um banco de praça. Precisava que o mundo o visse livre, uma fonte de inspiração e rebeldia nacional. Foi ao banheiro esfregar os olhos com água fria e bastante cuidado.

Eis que quando conseguiu se livrar dos pruridos e estava a por a coleira em seu companheiro, percebeu que ele também estava com os olhos de dar dó.
— E mais essa… Cachorro por acaso dá conjuntivite? – Perguntou-se, esperando uma das respostas inteligentes de seu cão. Mas esse estava desolado pela possibilidade de ficar cego. – Somos dois fodidos.

Juntando os trocados que estava reservando para trocar de bicicleta – ele acreditava em um mundo sustentável, quando mal tinha dinheiro para sobreviver nele -, Tantálio levou Picasso ao veterinário e comprou alguns dos remédios (genéricos e com cartão da farmácia, claro): porque podia até ser otário, mas cuidava dos animais. Vivia pobre por comprar lanches para cachorros de rua, sementes de girassol para os pássaros que passavam sobrevoando pelo seu telhado, esfarelando as torradas da manhã para as formigas – mesmo sendo alérgico a elas, que sempre o picavam durante a noite quando não recebiam sua dose de alimentação diária.

E pelo excessivo maternalismo, faltou mais uma semana ao trabalho: Picasso era seu dependente na ficha de cadastro. Até mesmo identidade e CPF o danado tinha. Era um animal físico e nada jurídico. Por sinal, muito esperto e bondoso. Permitiu que Tantálio usasse de seu medicamento para que ambos se curassem da conjuntivite. E não é que em três dias estava tudo bem?

Todavia, Tantálio aprendeu muito nos três dias que ficou parcialmente sem ver. Os noticiários da TV, as músicas nacionais e as altas frequências de rádio que conseguia captar às três da madrugada com palavras em idiomas que não reconhecia – ainda que isso não o impedisse de imaginar missões muito perigosas, em que espiões russos usavam tecnologia de ponta para contraespionar agentes infiltrados nos programas governamentais dos países vizinhos. Todos eles liderados por Mr. Bean, claro.

Tantálio resolveu se tornar cult de verdade, não para discutir em grupos ou rodas de debate. Subitamente queria ser inteligente, compreender como o mundo era regido pelos humanos para humanos. Queria sentir o perigo, o gostinho que só o conhecimento – e só ele – pode dar ao indivíduo. Status quo. Aprofundou-se em livros que sempre comentou sobre, mas nunca havia lido nada além de uma sinopse barata da internet.

Nos seus três dias antes de retornar ao trabalho leu Marx, Freud, Orwell, Huxley. E caiu num profundo poço de auto-análise. De repente, Tantálio deixava de ser um pouco otário.
— Mas que diabos…

Ele suspirava, a cada página. Se perdia nas explicações, voltava à página, ao cérebro e batia a porta para pedir passagem. A euforia do poder logo lhe subiu a cabeça: queria ser revolucionário, vermelho do ferro e fogo, terras para todos, educação de qualidade, presidente do senado! Que loucura. Então, o despertador tocou a campainha de seu inconsciente na manhã de segunda: era o trabalho. Quis ir ao emprego, armar campanha, liderar o exército de operários terceirizados, todos de botinhas de PVC e capacetes-lanterna. Se viu pôr fogo na multinacional que drenava os rios e almas humildes, fazendo discurso de brasileiro honrado. E ele soube quando levantou e sentiu o olhar centrado de Picasso sobre si:
— Continuo um otário.