Route

Eu acordo. O teto simétrico me encara, suas severas sombrancelhas no canto do quarto. Minhas mãos piscam. O dia me enclausura, novamente. Busco forças para romper a relação com a cama, mas há uma inércia que se apodera de tudo: o piso morno; os fios avulsos; a inanição de minha carcaça sobre meu caixão, repleto de espuma e penas. Nele ficaram todas as fracassadas tentativas de voos mais altos. Cabulo-me.

Alto torpor. Tento me sufocar com o travesseiro, entretanto, ainda sofro de uma infindável sensação de incapacidade. Seria mais fácil deixar que o mofo das noites mal dormidas me consuma. As penas rastejam pelas paredes. Tropeço em todas os insanos ensaios de me dar um fim e em qualquer semântica que faça de minha vida uma incógnita respeitável.

Há um insuportável e esmagante sentimento de que tudo foi abandonado. Imóvel, dentro um veículo em alta velocidade. Não há destino. O vento assola minhas narinas. Fervente atrito com todo o vazio que me habita. Não tenho mais forças para lutar. Satelites me orbitam. O mundo se veste, a costura do lado errado. Fecho os olhos. Abandono meu corpo, lentamente. Deixo que se dissolva ao final da tarde. Deixo que queime…

Eu acordo.

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