Memorial de um Sati

Há um desconhecido vazio que insiste em habitar minhas entranhas. Há um silêncio, distante e vinho, que cerca meus lábios. Beija-me, para que saiba que lhe amei. Enreda meu estranho ser, suas digitais afogadas em meu tecido. Trance elogios, enraíze-se em meu cérebro já expirado. Torne cada simples ato em uma ode. Eternize-me com véus quentes de nostalgia cítrica. Faça da bruxa uma repulsiva deusa, batize todas as insanidades com este poço de lágrimas.

E, antes que se preencha, deixe-me. Suspenda o coro. Que a cômoda escuridão possua o recipiente e, finalmente, pacifique-me. O horizonte lentamente se aproxima. Minha voz, definhada, adormece junto às pálpebras baixadas. Beija-me, uma última vez.

Route

Eu acordo. O teto simétrico me encara, suas severas sombrancelhas no canto do quarto. Minhas mãos piscam. O dia me enclausura, novamente. Busco forças para romper a relação com a cama, mas há uma inércia que se apodera de tudo: o piso morno; os fios avulsos; a inanição de minha carcaça sobre meu caixão, repleto de espuma e penas. Nele ficaram todas as fracassadas tentativas de voos mais altos. Cabulo-me.

Alto torpor. Tento me sufocar com o travesseiro, entretanto, ainda sofro de uma infindável sensação de incapacidade. Seria mais fácil deixar que o mofo das noites mal dormidas me consuma. As penas rastejam pelas paredes. Tropeço em todas os insanos ensaios de me dar um fim e em qualquer semântica que faça de minha vida uma incógnita respeitável.

Há um insuportável e esmagante sentimento de que tudo foi abandonado. Imóvel, dentro um veículo em alta velocidade. Não há destino. O vento assola minhas narinas. Fervente atrito com todo o vazio que me habita. Não tenho mais forças para lutar. Satelites me orbitam. O mundo se veste, a costura do lado errado. Fecho os olhos. Abandono meu corpo, lentamente. Deixo que se dissolva ao final da tarde. Deixo que queime…

Eu acordo.