Alforria

Deixou o Sol lhe queimar. Os raios atravessaram seu estômago, pintaram o fundo de sua íris. Dezessete graus, cinco pessoas, o ar. Tudo lhe causava um certo desconforto, como o poema de Poe. “Nevermore”, e seu corvo grasnava, rasgando um pedaço de si, abominando seu tumor. Porque, sim, todo humano o tem, um Karma, uma escuridão que é absorvida pelos que o cercam, ainda que em níveis diferentes. Há um cheiro de doença que insiste, ralha, transgride os limites. Uma barreira intermitente, rosas mortas nos umbrais – todas as etapas de uma vida.

O sino da Igreja, um longínquo bater de asas no oceano. Cada singela rachadura no tempo-espaço: a construção de uma memória. Cores flutuavam pelos dedos dele, indecorosas, atrevidas. Ácaros estranhos ingressavam entre as sobrancelhas, a poeira que antecede a cri(-i, +em)ação. Um ímprobo suor, o sussurro que coçava em seus cotovelos. Imagens, as sombras. A estranha perspectiva de um encontro que nunca aconteceu. O Sol, queimando. Havia sangue em todos os seus desejos.

Se rendia a si, o tumor sem face, o rei de ninguém. Escorria, chovia pelos poros. Pensava em dominar o estranho. Assumia seus olhos, adentrava seus comas. O Sol, oh, o Sol. Refratava toda a insanidade, desnudava seu negrume, expulsava a praga.

Normalizou-se.

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