Semântica do Amor

Houve um momento de hesitação até um o som se dipersasse pelo infinito. Uma singela explosão, de se encherem os ouvidos. O homem olhou para trás, contemplou as possibilidades que se formaram em sua imaginação, e partiu. O sol vagarosamente se despedia, seu calor dançando na atmosfera. E ele também: partiu em passos de salsa pela avenida.

León deixou que uma gota lhe escapasse, preciosíssimo prisma de seu ser. Aquele dia estava sendo mais difícil do que qualquer outro. Aos poucos, notou que o nível de obstáculos para se superar ao longo de suas 18 horas diárias iam se complicando em algo parecido com progressão geométrica.

Havia uma parte de seu cérebro que lhe negava qualquer abstração, mas que, simultaneamente, tropeçava em toda e qualquer oportunidade oferecida ao acaso. A tela branca do computador parecia sugar-lhe as córneas, ou juntar-se a elas numa estranha superfície irregular.

Escrevia palavras soltas e as apagava em seguida. Parecia brincar com a memória a todo instante, como se um alzheimer lhe corroesse até mesmo a ponta dos dedos. Não conseguia escrever a maldita carta. Em pensar que Celso insistia tanto, para que lhe escrevesse à moda de Castelo Branco, ou com uma similaridade que desse à memória um gosto casimiriano.
– Ao diabo! – Exclamou ele.

Não deveria ser ninguém além de si mesmo. Por que mil infernos Celso não se contentava com o poema da batatinha – e os artísticos carimbos de coração feitos com batatas? O pleonasmo das solanáceas era o fator multiplicador de seus sentimentos. Celso não conseguia entender as sutilezas, e aquilo matava toda a mísera sensibilidade poética de León.

De repente, se pôs a pensar: Por que gostava tanto daquele homem? Depois de doze anos, talvez os motivos já houvessem se perdido no caminho. A comodidade acaba afundando sua nádega ao chão e deixando uma marca difícil de se preencher. Mas… Não, devia haver algo. Afinal,  tanto tempo não é para qualquer um. Pelo menos, é o que sempre se diz. Ele gostava de acreditar na sabedoria popular. Era como alguma espécie de cura para todos os males do mundo.

Decidiu que estava velho demais para ser meloso. Era simplesmente ridículo e inaceitável. Escreveu, por fim, três palavras. Elas teriam mais sentido do que quaisquer outras. Elas expressavam todos os momentos pelos quais passaram, fossem bons ou ruins. Aquelas três maravilhosas e libertadoras, cheias de um bizarro encanto que aferrenha o mais plácido dos corações. Colocou em letras grandes e clicou em enviar.

Então, correu escadas abaixo. A cidade lhe pareceu divina por um momento, regada por aquele infernal calor que comprimia suas vistas. Se sentia, finalmente, livre. Uma refrescância lhe percorria o corpo cansado – seria o ar condicionado? -, enquanto subia pelo elevador. Do alto do edifício, via Celso perfeitamente. Poucos centímetros e algumas estruturas de segurança os separavam.

No escritório, a máquina de Celso ressonou e vomitou um papel. Excitadíssimo, agarrou-o com as duas mãos. Quando seus olhos correram pelo objeto em suas mãos, fechou-se numa carranca imperdoável – até ouvir a gargalhada de León. Abriu a janela com violência.

Houve um momento de hesitação até um o som se dipersasse pelo infinito. Uma singela explosão, de se encherem os ouvidos. Repetiu os escritos:
– Tome no cu!

O homem olhou para trás, contemplou as possibilidades que se formaram em sua imaginação, e partiu. O sol vagarosamente se despedia, seu calor dançando na atmosfera. E ele também: partiu em passos de salsa pela avenida.

Anúncios

Ademonia

Grama nos dentes
a queda azul,
reflexo vazio
meu corpo nu.

Acalme o cirandar,
cale as crianças:
os frios dedos
descendo a jugular…

Dê-me passagem,
grito oliva,
efeito placebo
corrompe-espírito.