Encomenda

Invada o meu templo
Viola meu ápice
contradança, ínfimo tango,
implanta o desassossego.

Vem, assalta meus dedos,
pai de todos medos,
pesadelo vespertino,
Esses lençóis suados…

Não há qualquer exemplo
sequer suja teoria
que nos ponha apar:
tece o Destino.

Engana, amazona sabedoria,
Toma do meu cálice
faz-me minha
Ah, o insólito beijo…

Ecoa, transponha meu líquor,
domina mil flores
canta minhas dores,
Cala meu silêncio.

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Peste Negra

A Doença inevitável
entrou por debaixo da unha
nada, porém, mais lamentável
fez-me testemunha.

Reproduziu-se, em tanto,
Mal podia respirar
Febre de amianto
num copo de guaraná.

Viajei para Suíça
tossindo metro a metro
Não houve qualquer justiça
que me concedesse o cetro.

Aconselharam-me a não desistir:
Tapei meio-Sol com peneira!
(De que adianta tanta asneira
Seja Homem, Pinóquio ou quati?)

Algemei-me:era de lei
entre as esquinas da casa,
Por madrugadas convulsionei
porta, sofá… pés na brasa.

Num sonho minha avó
curou-me desta chaga:
“Querida, antes só
que mal-amada.”

Lobotomia

O branco dos olhos

é o mesmo da alma,

tal calma esquizofrênica

de abutres em voo.

 

Mundano compasso de tempo

escorre pelo nariz,

Cheiro o vento

tumor viscoso e vermelho.

 

O som se afoga, dissonância,

(águia amorfa feita

de guerras e vácuos)

e cicatriza, fluorescente.

 

Mãos de nuvem

armam em mim tornados

valseando Vivaldi

incansavelmente.

Cianureto

Quando o azul do céu

e o oceano se beijam

sob as unhas trôpegas da noite…

O bafo tardio das palavras

digere o gosto torpe,

transcende à boca.

Numa sede bege, ternura,

vomitas sereias sóbrias

que lhe beijam os calcanhares tortos:

“Enterradas a cinco palmos e meio,

as areias de tua vida

pesam mais sob as pálpebras.”