Verão

Há um terrível espanto
em cada recôndito canto
que se faz vida.

Canta, indomável tumor,
por toda proibida vez
que se fala em amor.

Pelas amargas manhãs
lágrimas com sabor de maçãs
são sinônimo de porre.

E, para cada morte,
lindas estrelas da sorte
atravessam essa avenida.

Sentada, com os olhos na Lua,
minha cabeça crua,
afetada pelo calor.

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Devaneio

Fechou a última pasta com um sorriso de resignação. Atravessou o escritório em passos largos, soltando o tênue aperto da gravata. Deslizou pela rua, admirando os absurdos estilhaços de final de tarde, que morriam majestosamente refletidas nas janelas dos metrôs e entre as irregulares linhas formadas pelos edifícios metropolitanos.

Quando disparou-se pela ferrovia moderna, a maquinaria deu lugar a uma mulher estonteante. Não havia nada de peculiar naquele corpo, exceto sua própria existência. Carlos não pôde conter o singelo abate que tomou seus vagos pensamentos e transformou aquele momento na contemplação suprema de uma arte comum.

Eram curvas censuráveis reveladas sutilmente pelo longo vestido preto de alças finas. Era o magro contorno do seios, e a força como as mãos pousavam astuciosamente no ar. Era o lento cruzar de pernas, marcando o tecido; um emaranhado de fios castanho-claros que caiam preguiçosamente ao redor da face triangular.

Tentou mover os olhos para outro lugar, e soltou um sofrido suspiro. Ela falava ao telefone num tom baixo cantante, porém, com um quê de metálico. Ela se arrastava pelas partículas de poeira e podia senti-la infestando sua pele. Percebeu, finalmente, que continuava a mirá-la pelas portas envidraçadas da estação. Seu olhar encontrou-se com o dela, um indiscreto azul. Ele era míope, mas tinha certeza disso.

Tornou em sua direção, tomado por insistentes sussurros inconscientes. Então, ela sorriu. Uma amarga nostalgia fez com que o coração de Carlos enfraquecesse. Fitaram-se novamente. O sorriso dela era como olhar o universo: complexo, solitário e absolutamente lindo. Estava irremediavelmente seduzido.

Luísa, do outro lado da estação, deixou seu riso escapar – podia imaginar as linhas de seu próximo poema enquanto ignorava as ordens de seu chefe babaca. O silêncio esmagava seu juízo em uma dança suave. Espreitou-o pelo canto do olho, tentando adivinhar com que nome seu rosto poderia combinar.

Quase podia sentir a aspereza da barba que se estendia, rasa e indolente, como um tapete de mistério pelo rosto quadrado. Gostaria de prender margaridas ali. Havia um tom longíquo na partitura de seus lábios, um inalcançável paradoxo. Os ombros largos, relaxados contudo precisos pixels no contorno do corpo como as bordas de um cartão postal. Talvez falasse com sotaque inglês?

Percebeu, por fim, que também estava sendo avaliada e cruzou as pernas desajeitadamente. Ele jogou uma mecha ondulada para trás da testa num firme movimento. Havia reflexos bronzeados em meio ao negrume do cabelo – esses mesmos preencheriam seus cinco próximos finais de semana em devaneios. O vestígio daquelas digitais… Tremia, enquanto fingia falar ao telefone: dava conselhos a si mesma à medida em que se encantava pelo óbvio charme do homem a sua diagonal.

Ele era músico nas esquinas apertadas dos seus sonhos. Ela, poeta dos incógnitos cômodos vazios e dias chuvosos. Seus olhos fizeram amor, refletidos no vidro e em si mesmos. Houve um relapso temporal que se prolongou dubilmente. Estavam sentados lado a lado, num lânguido contato visual. Os dentes de Luísa, brancas constelações, subitamente rasparam os lábios precoces de Carlos. Ele, dominado por uma incrível fluidez que alcançava todo o cenário, arqueou suas costas e, apanhando os cabelos da nuca dela, aprofundou aquele insolúvel crime…

O sereno murmúrio contra os trilhos embalou o despertar. Colunas de metal perfuraram as vistas. Luísa piscou, com um sorriso patético no torcer dos tornozelos. Carlos jogou a cabeça para trás, atingido pelo projétil letal. Ela sentou-se no metrô, ainda entorpecida, lançando mão a uma última memória: nada além de seu fantasma, suntuosa colisão.