Raia

Que fume todas as cartas de amor
e expire o hino de teu nome.
Dances ao som das milhões
de ligações perdidas,
das promessas fodidas.

Lampejes os ignóbeis
fios de cabelos mortos,
receitas de bolo caseiro
Aceites um belo chute
no palpitante traseiro.

Ergam as bandeiras do luto,
espalhem discursos ao indigesto
funeral do centro do mundo
Que recrie teu defeito-clone
recheado de muito ardor.

Retumbes as canções-lembranças
durante a ressureição
(Invoques todo o Funesto!)
Que afogue quaisquer esperanças
de insossa reconciliação.

Deixes os dedos do amanhã
circundarem tua espinha…
Libertes o que ainda se tinha,
Submerjas no denso silêncio
que acaricia teu divã.

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Você

Você, que vem de lugar algum
e me alimenta com nada mais
que um pedaço de mim mesma.
A chama absoluta que se apaga
em cada brisa noturna, cada beijo
secretamente guardado.

Em sonho, atrás da porta de entrada,
há um estranho eco preenchendo
minhas bochechas murchas.

Se propaga ao infinito de meus anos
ao vazio torpor das esquinas
à debilidade de todos meus planetas
vagando em meus rompantes, na insônia
de meus corredores, nos microscópicos
espaços de meu sangue venoso.

Você, junção de cores invisíveis
espectro de meus dias insanos
imaterialidade do meu ser.

Catalepsia

Quando se tece o manto, as pálpebras incontrolavelmente mofam.  Insolúvel umidade na qual mergulham os pesadelos. Debaixo da cama, um novo mundo range suas soleiras, sempre abertas. Demônios arranham as tábuas, adentram pelos ouvidos em ruídos que se amplificam pelos tecidos, desdobrando-se em sincronizadas cacofonias. Você treme. Pode sentir uma respiração fria atravessando o cobertor, entrando pelos espaços dos seus dedos do pé.

Sua mente se expande e você perde a dimensão espacial dos objetos. Navega através dos microespasmos nervosos que solidificam pontes em seu cérebro. Há uma letargia que se espalha, estranho vírus, por toda a parte. Sua respiração começa a se entrecortar, imersa em um fundo vinho. Pode ouvir a onda de choque aquecido através da expansão supersônica do ar, que vem de algum lugar dentro de si mesmo. Pequenos estalidos ao redor de sua face pré-adormecida.

Já não tem mais tanta certeza de que trancou a porta. Na verdade, pode sentir uma corrente de ar vinda naquela direção, mas não ousa abrir os olhos. Há um leve ardor em seus cotovelos e você subitamente consegue imaginar um contorno de maxilar. Sacode a cabeça, nega a imagem e a si próprio.

– Não é real, não pode ser real.

Um insistente sussurro ecoa, ganhando poder. Você pode sentir a vibração das moléculas enquanto o rumor se transforma em algo próximo do ensurdecedor, imponente rajada de vento que afasta toda a sua coragem. Então a porta se fecha, num estrondo que pareceu destruir tudo ao redor; seguido de um perturbador silêncio. De olhos sempre fechados, você sente um arrepio intenso percorrer toda a extensão capilar, abandonando uma agonia atrás de seus pulmões. Mesmo sem fazer uso da visão pode pincelar, como Edward Munch, o grito que lhe possui os lábios entreabertos – a maldita respiração o trai. Involuntariamente, você se contrai. Pode ouvir o surdo murmurro de um idioma proibido. Sabe que a conversa é direcionada a você e vislumbra as córneas avermelhadas, as veias cor de musgo saltadas para fora.

Pronto. Você está dentro. Todos os demônios o espreitam. Sua visão é baixa, contudo pode entender o contorno de seu próprio nome numa enorme faixa acima de sua cabeça. Sente que a rígida passagem se fez. Sabe que está minuciosamente inserido em si mesmo, em um recôndito da mente que diria ser inalcançável. Os passos deslizam ruidosamente através do líquido raso, superfície dos pensamentos que não deve emergir.

Pares de olhos recaem sobre seus passos, brotando como flores de lótus em meio a imundície cotidiana: montanhas de lixo amontoadas em estratégicas esquinas. Você tem uma agulha em mãos e estoura uma das bolhas oculares com óbvia curiosidade. Um enorme estrondo ecoa, inflamado, e preenche o espaço de um denso nevoeiro vermelho. Violam suas fantasias, expulsando os delírios monótonos pré-programados. Rasgam suas entranhas, comem um pouco de sua fome e se possível, tiram a cobertura de seu outro eu – que vive esperando por essa oportunidade de ouro todas as noites.

Seu corpo lentamente se tinge à medida em que avança pela rua de pedra. Nas janelas sombras ganham formatos e um estranho zumbido, como se alguém houvesse abandonado uma tevê ligada sem qualquer programação.  Você, levemente confuso dentro do cenário sombrio, procura algum lugar em que possa se esconder. Pode ouvir os passos ressoarem em algum lugar bem atrás de suas ancas. Você sobe a escorregadia colina, ciente de que não pode mais voltar – não há mais nada além da escuridão de onde veio. Abre os portões do labirinto, levemente enferrujados.

Como estava ali? Você queria, apenas, sair de seu próprio corpo. Experimentar uma projeção astral, talvez dar uma espiadinha em algum outro sonho. Estava cansado de viver 365 dias dentro de si.

E eis que, em pleno devaneio, um flash percorre o horizonte negro. A imagem sofre uma distorção de cores momentânea, e pode jurar que sentiu um riso ecoando em sua espinha, mais parecendo um grunhido visceral, como se algo maligno estivesse mais e mais impregnado ao ar. Novamente, sua mente se põe em estado de pânico. Alguns passos mais. Há uma placa sem qualquer escrito, rebuscada em sangue. Você pode ver o cheiro da insanidade.

Há várias árvores mortas a cada curva sugerida pelo caminho. Em algumas, você pode ver as pessoas que abandonou. É inevitável um suspiro ou outro. Pensamentos escoam através das paredes de folhas secas, ganham vida. Você pode topar consigo mesmo a cada nova escolha, direita ou esquerda, ou até mesmo quando resolve atravessar os imponentes galhos entrelaçados.

Seu corpo está ligeiramente mutilado. O sangue, antes grotesco, flutua pela tez insolentemente. Uma infinita tensão se apodera de seus membros. Um golpe é desferido e atinge sua orelha. A dor lancinante faz seu coração disparar, como se o próprio pudesse sair a galope. Você sabe, instintivamente, que o par de olhos demoníacos que pousam sobre suas omoplatas são seus – como todos os demais. Sob seus pés a trepadeira avança, interminável, segurando-a como se tivesse dedos. Num puxão grosseiro você se liberta e inicia uma corrida contra si mesmo. Há um denso nevoeiro a sua frente, um cheiro de podridão que avança ferinamente contra seus instintos mais primordiais.

Dentes pontiagudos avançam cada vez mais famintos. Pressente uma mordida lançada, como um ritual, a alguma parte de sua cabeça. A dor ressoa junto a sua respiração e passadas. Tudumptudumptudmp… Estão tentando comer seu refúgio. Sente dentes, quadrados, rasos e pontiagudos raspando sua têmpora esquerda. Você se vira, subitamente pronto para se entregar às trevas. Há um grunhido repetido que o lembra de uma canção que sequer sabe de onde veio. A superfície se rompe, porém não há dor, apenas um resquício de fascínio pela entorpecente sensação de se perder.

Um buraco se abre, e você é sugado para outro moinho, como um pesadelo que se segue, infindável, entre soluços miseráveis. Ainda que nade, não pode escolher um caminho além daquele o qual a monstruosa maré lhe arremessa. Suas memórias lhe atingem, uma sucessão de pancadas deturpando todas as suas barreiras de uma só vez. Está nu, atravessado por sua própria vergonha.

Foi sugado ao fundo. Ali, figuras amorfas avançam em sua direção. Você pressente o fim. Não há para onde fugir. Sabe que alguém está aumentando o volume da tevê, e seu corpo todo salta. Uma insucessão de eventos perdidos. Entre eles, você vê desfocadamente, milhões de si mesmos – em diferentes idades, momentos, e até mesmo aqueles que nunca teve oportunidade de conhecer: os vários outros.

Um clamor ilaquea todo o espaço. Pode sentir todo o seu sistema nervoso em colapso: em fuga, você alcança um ponto mais distante. Um holofote de luz recai sobre seu deplorável corpo, e você tem um breve segundo de transe. Pode sentir a retina sutilmente desviada para fora de sua visão de primeira pessoa. O infinito escuro a frente nunca pareceu tão nítido. Nuances, sombras e ecos ondulam aos arredores. Então, visualiza a corda, que se estende até os céus.

Tenta escalá-la, ignorando as incessantes tentativas de trazerem-no para baixo. O brado vindo do chão está cada vez mais alto. Risadas e sussurros crescem, junto ao maldito ruído que acompanha os lados de seus tímpanos.

– Junte-se a nós!

– Mais um esquecido!

Você sabe que a corda está prestes a se romper. Um sorriso escancara sua face distorcida. A cada avanço, sente o peso recostar-lhe. Precisa acordar, porém uma terrível modorra cresce pelos membros. Eles irão, definitivamente irão…

E seus olhos pendem junto à penumbra. Os braços atrozes descaem junto ao abismo. Você sabe, nunca mais poderá voltar ou ser o mesmo. O caos lhe pertence agora.

Sede

Amor
despenca
dos telhados
com seu paraquedas
como um oceano de águas-vivas
inunda o ciano céu, veste
os cílios semicerrados
encanta a mente de
feitiços raros
põe o corpo
em guerra.