Oásis

       Algo flutua sob meus sapatos: os restos de minha dignidade, provavelmente. Estávamos no fim do mundo. Ruínas enfeitavam a esquina redonda. Uma tempestade de areia se formava em nossos umbigos deteriorados, querendo se unir a imensidão bege.

       Uma tensão corria pelas vestes. Ambos nus perante o silêncio, esqueletos desenhados em túnicas. Subjulgados por nós mesmos, pelos cotovelos. O que resta na mente são visões de raios infravermelhos que explodem na atmosfera seca.

       Sabemos: estamos condenados. Tragam-nos um pedaço de lucidez. Uma dose, dois dedos, de gritos boreais. Permitam-nos comer esses cérebros, geniais desastres, estorvos iconoclásticos. Deixem-nos, especialmente…

       Zunem tecido e derme. Exclamo pelo diafragma, engolida pela intensidade das sensações. O véu de vidro despenca. Ondula, perdido no ar. Assisto-o congelar em direção ao Pólo Sol, enquanto o movimento certeiro me atinge. Mercúrio, derramado em minhas pálpebras.

       Existe uma placidez em nossas respirações nada adolescentes. Meu nome parece um monumento, agora. Eternizado nos lábios dele, rachados, pela experiência, tão lindamente:
       — Saarah.

       O som se dispersa. Voo livre, destino ao esquecimento. Ao deserto em seus olhos. Ao oceano em nossas mãos.

Requiem do Amor

O relógio batia meia-noite, a hora proibida. Entre a penumbra da noite eterna, eu era um camaleão da cor do silêncio. Enfiado entre o beco da porta, sussurrando baixinho aquela música que Susan sempre cantava antes que eu dormisse.
Como uma folha de papel, meu âmago dobrava e desdobrava. Os olhos de uma letargia infinita. Passei pela entrada. A íris esmeraldina encarava-me. O perfume de menta ainda impregnando seus lábios entreabertos.
Passei a mão pelo véu que a cobria, arrancando-lhe daquela prisão eterna.
Tão doce… Tão pura.
Sem pensar duas vezes, lhe invadi os lábios, sedento, o herói do último ato. As pálpebras fechadas confirmavam o prazer que sentia, eu sabia.
Arranquei-lha as vestes com a mesma faca que cometi o crime, beijando-a sempre, como nunca havia deixado de ser. Nos fiz um, lentamente. Seu corpo ia sugando o pouco calor do meu em parcelas exigentes. A excitação revestia meu ser, cada vez maior. O sangue manchava meu corpo e o amor profano que nutria por ela, nunca antes revelado.
A garganta tremia, num nó interminável. Abracei-a contra meu corpo, beijei-lhe ternamente a bochecha e passei a mão por seus olhos, antes de sussurrar:
— Boa noite, minha querida irmã. A melhor de todas.

Angelus Mortis

        Os fios enroscados no couro cabeludo em nada se comparavam ao emaranhado de pensamentos que circulavam no cérebro. Eram frases e imagens curtas, que permitiam um apoio em meio ao turbilhão. Vez ou outra, ela afogava-se bem dentro de si, incapaz de mover-se. Porque não havia nada melhor para fazer, não havia rosto algum que a salvasse daquele extenso e conturbado mergulho. Não sabia o que realmente era, no que o tempo a havia deformado. Se sabia, não compreendia. 
        Quiçá se importasse. Ela pensava que tudo aquilo, aquelas perguntas sobre o futuro, os fragmentos destroçados e repetidos de passado pareciam irremediavelmente desconsideráveis quando olhava para o céu nublado. As palmas das mãos nuas raspavam no passeio áspero, o rosto absorvia chuva e lágrimas tão cheias de crueldade e desespero.
        Quantas vezes esperou pela morte ou quase a causou? Havia cansado de fantasiar sobre ditos populares, meras palavras soltas que serviam como corda para os ludibriadores, e de lenha para os que se julgavam sábios. Se existisse algum Deus, estaria tentando ensiná-la um pouco mais de vigor, agilidade e esforço por detrás daqueles olhos desenhados de lápis.
        Contudo, apenas quando estava ali, naquela insanidade pulsante… 
        Via além da mais eterna ciência, pois o que experimentava a abastecia por mais um tempo. Precisava vê-lo.
        A chamam de louca sem jamais saber como estão corretos. Intensidade aflorava em todos os seus traços, marca mais que registrada. Se considera frágil demais para suportar tudo sozinha porque dependia de tudo e poucos. Odiava ser o que era. Sua voz, seus atos, até mesmo as músicas que ouvia eram um reflexo do mundo sob sua perspectiva. 
        Gostaria de estar sobre outra pele, queimando e queimando, dando voltas infinitas em outros labirintos. Já havia cruzado o mesmo raciocínio um punhado de vezes, e se sentia tola. Uma série de deja vùs, sonhos e bizarrices. Nunca viveu na realidade, não totalmente. E se sentia feliz assim.

         Fechou os olhos e deitou-se lentamente, como se as gotas fossem exercendo cada vez mais peso. Ficou ali, imersa por horas completas, no silêncio mais falado de sua existência. Arrancava-lhe as vísceras saber que jamais mudaria nos aspectos que mais a incomodavam. Sentia-se oca por dentro, com pensamentos interrompidos e um corpo monstro que gania e suplicava desejos por inexistencialidades. 
         Tossiu, em meio aos soluços. Estava começando outra vez e não podia se deter. Seus sentidos gritavam e se contorciam e por maior dor que aquilo a causasse, algo dentro de seu âmago implorava por aquela emoção, aquele infernal ardor que entorpecia e matava. 
         — Ei, vamos, saia da chuva.

         Não respondeu, dando um singelo curvar de lábios. Um filete de sangue lhe correu pelo canto da boca quando voltou a tossir.
         — Verônica. 
         Ela continuou ignorando sua presença ali. Por dentro, um frêmito a apossava todas as vezes em que ouvia seu nome ser pronunciado por seu timbre tão grave quanto o fim de tarde, vindo de trás para frente.
         — Não deveria ter tomado aquilo. 

         Levantou o cenho, fingindo irritação. Sabiam perfeitamente que ela o estava chamando o tempo todo.
         — Cale a boca, idiota. Saia daqui.
         — Você bem sabe que não posso – Sentiu-o próximo. A pele enrugou-se num calafrio leve. – Afinal, continua me trazendo para cá. Se não parar…

         — Vai ficar preso enquanto eu existir. – Levou as costas do braço à testa e gargalhou. – Isso é tudo sua culpa, seu maldito. Me deixou aqui sozinha e a único nome que me vinha a cabeça foi o seu. 
          Não se lembrava mais de nada além daquele nome desgraçado. Um vazio que a corroía e destroçava. Que dava tempero às sílabas, cor aos contornos dele. Ele quis tocá-la, uma calúnia imperdoável. A palidez da pele, o negro dos cabelos e o perfume do sangue o seduziam. Estava louco para fazê-lo, com os lábios sedentos. Dava até para sentir o gosto amargo e sutilmente salpicado dela.
          Sentiu os pulmões latejarem e comprimirem enquanto tossia. Mais e mais sangue escorria, e seus dentes pintados mostraram-se. Ele baixou o olhar para acompanhar os pequenos espasmos que Verônica dava.
          — Não precisava de tudo isso. Poderia ter vindo por motivos mais sutis.

          Ela sabia que era mentira. Sendo o anjo da morte dela, só materializava-se para assistir suas tentativas propositalmente falíveis.
          — Está sendo narcisista… de novo, Edgar.
          — E você, totalmente louca. Renderá fofocas aos vizinhos.

          Abriu mais um sorriso, dessa vez cheio de cinismo. A regeneração ia se fazendo aos poucos dentro dela. Podia sentir as células isolarem o líquido e tentarem expulsá-lo para outros órgãos.
          Subitamente abriu o par de chocolate líquido que eram seus olhos. Cravou-os nos dele, que pareciam sugar a cor dos dela.
          — Se eu morrer… Poderei vê-lo novamente?

          Sentou-se ao lado dela e a trouxe para perto pela nuca. Falavam a centímetros um do outro.
          — Talvez em seus sonhos. Você bem sabe, querida. – Alisou a bochecha dela com as costas da mão, que ia se tornando repleta de partituras roxas. Conseguiu parar quando o braço já estava quase todo fechado em linhas, como uma tatuagem. – Se morrer, estarei livre.
          Curvando-se para cima, tocou nos lábios dele. Sentiu uma onda de tremor, como se aquele fosse o real veneno. Os lábios pareciam se desmanchar por dentro, contornando e instigando o outro. O formigamento começou na ponta dos dedos do pé, porém, não parou o ato. Puxou-o pelos pretos cabelos bagunçados e continuaram mais alguns ferrenhos segundos, até que sentisse o coração prestes a explodir – literalmente.

          Arfaram e gemeram, rindo como se aquilo fosse alguma espécie de cócega. Ambos entorpecidos pelo contraste de temperatura, pela impossibilidade do que acontecia entre eles. Deitaram ainda débeis, compartilhando a chuva entrar por todo lado.
         — Ainda quer morrer? – A voz de Edgar ecoou, por mais que estivesse desaparecendo lentamente.

            Verônica riu, guardando uma observação para si enquanto suas digitais submergiam ao olhar ardente. Ele quase não existia quando sussurrou:

            — Quero viver morrendo eternamente.

Osmose

Estava engasgada. Sentia o peso de um saco de laranjas no esôfago. Pronto: o mundo lha tinha atado um nó. A filosofia não satisfazia as questões primordiais, não respondia o porquê daquela chuva interminável. Sequer a geografia, ainda que pertencesse a altitude e latitude de alguma localidade e sob seus pés os satélites ululassem fotografias radiográficas.

As ventas estavam chamuscadas de sal, aquele vindo dos cuspes gordurosos que as pessoas velhas escarram nervosamente antes de dormir. O dedo preso ao bueiro – segurava o molho das chaves que queriam fugir-lhe.
– Vamos, volte! – Vociferou em um susurro ensopado. Teve a impressão de estar em outro corpo. Era uma lesma?

Ah, o controle, precioso e inútil. Sempre tão amarelo, com escritos de bula. “Por que ir para casa?”, a mente perversa queria esmagá-la de vez.

Ela chega a soltar um soluço, felino bêbado. Quase… Lhe escapa ainda mais a argola, na ponta a unha. Chove, ainda mais. Seu rosto está tão fluído quanto sua indecisão. Por quê? O que fazer?

Os escarros acordam os lençóis, o susto, que nada mais podem fazer do que ofegar e se dobrarem novamente.Outra mão avança, suada. A cama se mancha.

Num movimento singelo, o tintilar se encaixa ao fundo. Ela resgata sua conquista, sua liberdade. Ergue-se, apenas para que a chuva lhe escape pelo queixo, movediça. Sobe a calçada, subitamente, vazia. Encaixa a chave na fechadura, que resmunga um velho ranger, irritada por reconhecer aquele típico girar. Já estava tonta com tamanha repetição. “O que ela tinha?”
– Nada – e tudo dá na mesma. Recolhe a argola e lança-a ao maldito bueiro outra vez. Senta-se na calçada, insanamente madura, pronta para a queda. Cessa a chuva com um lenço velho, varre a superfície.

A noite transforma-se novamente. Ela tapa os ouvidos e canta. Nem sempre o sal afugenta a todos, afinal.