Farfalho

Holofotes
terremotos em meu bote
e esses elefantes flutuantes
que fazem de mim
o que nunca serei.

Me dissolvo na água,
óleo gasto no furo
de seus bolsos nervosos
Sou raiz do nada,
árvore do mundo.

Sonhos, com Amor

         Virei-me para trás: nada além da sensação de abandono, meu próprio desespero. A neve entrava pelas falhas do cabelo, mas não poderia parar. O sangue deixava uma trilha de insanidade para trás.
         Apesar de não conseguir enxergar muito bem, sabia que ele estava por perto. Fiquei em silêncio esperando ouvir seus passos fortes. Por um momento cogitei estar louca, pois senti um arrepio que me atravessou o âmago e o partiu em sete: destino, morte, destruição, desejo, desespero e delírio. A última parte pertencia a ele, era sua personificação. 
         Contudo, não estava em lugar algum – senão dentro de minhas sobrancelhas, no gosto meio-amargo de minha respiração entrecortada, na sujeira debaixo das unhas e dos pensamentos. 
         —Talvez, não tão longe – o eco varreu o cenário, brotando do núcleo do universo. Do meu universo nada paralelo.

Precisava matá-lo, ou estaria morta. 

         Sorri, ouvindo sussurros. Jamais conseguiria. O que diabos eu estava pensando? Milhões e trilhões desconectados como miolos de uma fita cassete quebrada. Tudo nos separava, nada jamais nos distanciaria. Éramos suicídio e tortura dentro de uma valsa eterna.
         — Estou te vendo, Violet – seu sussurro me atingiu como uma descarga elétrica.
         Ri, sem vontade de seguir a direção de sua voz.
         — Engraçado você dizer isso, Shawn. Não deveria estar me colocando na cama?
         — Te ponho: na minha, se assim quiseres – estava cada vez mais próximo, a lâmina retumbava silenciosamente como se em luto por minha perda.
         — O senhor dos sonhos não deveria estar jogando areia em meus olhos?
         — Tens olhos muito preciosos para ficarem a solta – ele disse, sacudindo o saco plástico diante do gêmeo que havia ficado para trás. 
         Agora podia sentir o ar seco. Apareceu diante de mim como uma miragem: pálido como os raios de sol, cabelos negros lhe despencavam da face como um ato final. Vestia-se apenas com uma peça preta, enrolada ao corpo.
         Suspirei quando ele se abaixou, ficando de cócoras para me tocar a face. O punhal subiu até minhas bochechas.
         — Minha querida Violet… Melhor dizendo, Amor. Teus olhos que só veem teu nome, tua pele que só clama pela minha. O amor nada mais é que um conjunto de sonhos que se perdem dentro de si mesmos… Sou teu sonho e uma vez que sou o senhor de todos eles, sou teu dono.
         Ele curvou-se e tomou meus lábios, calorosa e vorazmente. Senti-me a beira de um desmaio.
         — Shawn… – Tamborilei, sentindo os olhos turvos.

         Apertou-me contra seus braços e soltei um soluço de resignação. Não adiantava fugir, pois sempre me achava. E, quando isso acontecia sempre perdia algo. Na primeira vez, roubou-me o sono, da segunda, as memórias de minha existência. Agora, meus olhos.

         — O que mais quer, Shawn?
         — Venha comigo. Não posso mais dormir, Amor. E isso nada mais é que tua culpa, maldita! Teu castigo será este: sonhará comigo pela eternidade.
         Fincou o punhal dentro do meu olho restante e soltei um grito interminável. Estava rendida, finalmente. A dor parecia arrancar minhas entranhas enquanto alguém as comia.
         — Sh… – Ele silabilou, abraçando-me. De seus lábios brotaram uma suave canção que embalava a mente para longe… Os pensamentos iam ficando mais e mais confusos, apagando-se um por vez.
         — Não me faça dormir! Preciso da realidade para ser concreta! Assim nunca serei verdadeira! – Contestei, me esforçando para manter a consciência alerta.
         — Eu não me importo. Esqueceu que vivo de ilusões?
         Ficamos calados por um longo tempo. Senti o corpo dele enebriar o meu num ritmo suave, vai-e-vem.
         — Agora só terá olhos para mim – provocou e eu gemi, indefesa.
         — Já sou toda sua. Por que faz isso?
         — Fecho os olhos de todos, enquanto meus próprios não consigo abrir – beijou-me a bochecha demoradamente. – A única que posso ver é a ti. Nada mais justo, não acha?
         — Mas, por que arrancá-los? – Indaguei, em meu último suspiro.
         Não me respondeu de imediato. Selou-me os lábios sofregamente e senti o sorriso perverso se formar enquanto ele respondia:
         — O amor também é cego, Violet.

Calendário

Os pés vascilam,

zumbis escuros.

Fungo, sem partir ao meio

sei nasci outra vez

tragada e afogada

por toda essa cacofonia.

 

As capas ondulam

sempre vermelhas 

dentro de minhas pálbepras,

encharcadas de misantropia

e ruas onde o amanhã

está bêbado e com enxaquecas.

 

Meus olhos epiléticos

ardem com a sua boca

sempre em silêncio…

A claridade me resgata

de minhas mãos e mente

in sis tentes.

 

Pairo trôpega pela lava 

que dorme na debaixo da língua,

pronta para dissolver minha

claustrofóbica psicose.

Definitivamente se mantém

deixando de ser.

 

Danço em círculos com 

maçãs nos calcanhares.

Luzes de maio levantam

seus festins e floretes  

A velocidade do som

precisa de ajustes.

 

Adormeço, minhas cores 

transparecem debaixo

dos pés murchos.

Começo. Jogada ao mar

sinto o infinito:

sei nasci outra vez.

Sonho

Fecho os olhos e abro a janela. A música, vermelha, desce as cortinas e me veste à alma morna. Estou morta, em eterna convulsão, as mãos do mundo sempre tão enérgicas sob meus pés e minha sanidade.

O compasso do tempo me vê e se aproxima descontraidamente. Rodo, rodo, rodo… E me roo, virada do avesso por esses finos dedos que corroem ao mais infinito dos homens. Fecho os olhos e minhas dúvidas, mergulhadas n’água, são meros fantasmas balbuciantes.

Penso ter visto as sílabas do meu nome nos ouvidos de alguém, o que não faz sentido pois só existo neste limitado e perpétuo espaço. Estou sozinha e flutuo em meus pensamentos, nuvens segredadas. Fecho os olhos e o cálido vazio me preenche.

O frio me adormece os joelhos, abraça meu cansaço. Vejo-me ao espelho: “Quantos anos duram o sono eterno?”. Azuis, as veias ecoam a silenciosa resposta. Abro os olhos e fecho a janela.

Filha do Esquecimento

             Deitou-se no escuro. Nada havia restado ali para que se vangloriasse, a própria solidão a havia abandonado. Um sabor de escárnio lhe avançou a língua, impassível. Não tinha lágrimas porque o cérebro as roubava toda vez que o alarme soava, aquele mesmo tom salmão que lembrava corais velhos. Não tinha voz: essa havia se perdido, viajando nos ecos noturnos do lobo que rondava seus sonhos.

             Esticou os braços, a esmo, criando espirais: incógnitas bonitas e vazias. Pressionou os dedos desgastados contra a garganta. Os olhos ardiam em gargalhadas presas porque os soluços frustravam todas as suas débeis tentativas. Vacilantes, resmungos agulhavam seu coração: estragado, sem chances. Letras imponentes lhe rasgavam os ouvidos e o resto do corpo sempre que saiam de alguma memória obscura.

              De uma esquina azul no fundo dos pulmões, um rugido correu à boca trêmula. Dedos cada vez mais urgentes apertando a via principal. Passagem da vida, da ausência. O ar formigava, querendo possuí-la. Subitamente, não existiam mais as suas pernas: estava presa dentro de um recipiente incompleto e se desfazendo a cada esfregar no meio das narinas que a consciência lhe dava. As imagens iam se apagando queimadas por cada novo esforço, também.

              Já estava meio cansada, meio acéfala, meio morta. Percebeu, finalmente, que todos os restos estavam se revirando. Não se lembrava de mais nada, apenas a fragilidade que a quebrava em ínfimos fragmentos. Uma sensação interminável tocou-lhe a alma, deixando-a apenas com uma valsa nos cílios: duas doses de mágoa. Com elas fez-se uma listra transparente em cada lado da face e, dando-se um último suspiro, libertou-se.

Submerso

E eu ainda sinto seu cheiro

Velho, como a camisa que ficou na gaveta.

Ainda corro dentro de você,

nas veias carcomidas e mornas.

 

Essa parte minha,

como todos os fragmentos

em que me partiram seus dedos brutos,

ainda lhe pertencem.

 

Exatamente como o tempo

que percorreu o espaço dez vezes,

e infinitamente me castigou

com seus sonhos milhões de sois em si saudosos.

 

Como a sede e a boca, nos chamamos

distantes e silenciosos dois corpos se esmagam.

Chamo seu nome e o eco vagueia

nesse sopro, seu coração é meu.