Eisoptrofobia

Sigo, constantemente,

apaixonada pelo fantasma,

fascinada pela evocação que minh’alma

causa ao passar pelo corpo lívido.

 

Ranhuro-me e, em meus vazios,

eu a semeio:

nos mais belos e escarrados versos,

nas lânguidas madrugadas intermináveis,

nos constantes desencontros de nossos lábios,

na atrocidade do inconsciente.

 

Enraíza-se anexa a minha coluna matinal.

Invento-lha hesitante, porém eloquente;

porventura, um bocado  concupiscente

no turvo limite de minhas incongruências.

 

Tal como Jekyll, liberto-a em meio ao choque

(recipiente e líquido, heterogêneos)

quando o vulto através do espelho

instala-se em minha retina.

Domina-me com o ardiloso toque

e se alastra: infravermelho.

Vampe

Somos as abortadas pelo sistema
curvilíneas pecadoras
Manchadas, por mais de 365 dias,
Mordidas pela maçã e pela serpente.

Somos as putas sincretistas
dos olhos oblíquos,
Que transmorfam dissabores
em imponência.

Somos milhões de Vênus
cultuadas enquanto souvenirs,
Porém discriminadas, oprimidas
e mutiladas em braços e cérebros
Pelo outro e por si mesmas.

Somos Joanas, Marias e Margaretes
orbitando debaixo de um mesmo Sol,
cuja fragilidade do sexo
não pode ser metida
no comprimento de um vestido.

Mulheres, bruxas do Mundo,
As que amaldiçoaram a raça humana
e cujos ventres a hospeda
com o feitiço da vida.

Meteoro-logia

Num sonho, era Deusa
das mãos diluiam-se universos.

E os silêncios de todas as cores
encaixavam enigmas
em sinuosas silhuetas hesitantes
que se desbotavam.

(A vilania deste cérebro errante
cujas falhas sinapses escarra…)

Da monocromia, fez-se um ponto
Do grito, veio o espanto
que nenhuma antiga prece ou encanto
era capaz de apagar.

A voz, vacilante, por ora rasgava a terra
outra vezes, violenta, despencava em pranto.
E todo o céu se encontrava em mar
Oh! Céu-mar, céu-mar…

Minha boca sobre a tua
(I)mortaliza-se.

O limite de Chandrasekhar*

Naquele enorme espelho, a via refletido em cada esquina escura. Dannah. Seus líquidos lábios que se dissolviam ao recitar meu nome.

“O amor nunca morre de morte natural.”

Eram os escritos na borda do objeto, que ornavam lindas rosas vermelhas aos seus pés.

Meus olhos se fechavam sozinhos, lembrando dessas últimas palavras que ecoavam como o vento quando dá prelúdio de tempestade. A sensação sufocante de sua voz causava-me arrepios. Ela se despedaçava ao ruflar do silêncio, dançando sob minhas lágrimas hesitantes. A lápide-espelho era uma constante lembrança do que havia me transformado. Sentia-me um decrépito. Meus olhos eram das cores daquela rodovia. Minha aparência era a de um estropiado, irregularidades por todo o meu caráter. Mais parecia ter saído de um acidente.

Daquele acidente. Como ainda vivia?

Um cemitério é um bom lugar para se estar… Tamanha calmaria não deveria ser uma dádiva apenas dos mortos. Toquei a borda metalizada do espelho. O motor roncava, meus demônios amontoando-se pelos meus ouvidos. Encarei os olhos insanos de Dannah no retrovisor, maximizados. Ela gesticulava impropérios doces. O carro avançava por sob meus pés, deslizando pela pista como os lábios dela corriam livres por minha mente. Subitamente, pesava-me toneladas.

Cala-te! Cala-te! Como ousa?

Ela sorria, seu tom alimentando aqueles cochichos. A velocidade fazia de seus cabelos uma tocha ao final de tarde, resplandecendo um tom alaranjado por sobre aquela cor marrom que agora me enojava. Ouvia um cantar agudo vindo de fora.

Silêncio! Gostaria que morresse…

Bateu-me no rosto. O estrondo esmagou toda a matéria da qual era composto. Meu rosto ainda sentia o vidro pulsar na carne, cortando-nos. Ela, ao meio. Seu crânio explodiu em minúsculos cristais areia fundida e gotículas de sangue. Parte daquilo possuiu-me os lábios, e tomei-os com sutil frisson. Depois, ondas leves de brancas me levaram…

…Até aqui. Converteram-me. Toco o espelho, vejo-a me chamar. Seu ríspido ressonar faz um barulho de trinco. Tenho um infinito déjà vu. Sinto a terra tremer, meus pés perdem o equilíbrio. Esmagado, outra vez, seus dedos me alcançam, sugando-me para dentro de si.

“O amor nunca morre de morte natural.”

.


    * Há um limite superior para a massa de um objeto elétron-degenerado, o limite de Chandrasekhar, além do qual a pressão de degeneração dos elétrons não pode suportar o objeto contra o colapso. O limite é aproximadamente 1,44 massas solares para objetos com composições similares ao Sol. O limite específico desta massa muda com a composição química do objeto, como isto afeta o raio da massa do número de elétrons presentes. Objetos celestes abaixo deste limite são estrelas anãs brancas, formadas pelo colapso dos núcleos de estrelas nas quais acabou o combustível. Durante o colapso, um gás degenerado de elétrons forma-se no núcleo, provendo suficiente pressão degenerativa que é comprimida até resistir ao adicional colapso. Acima deste limite de massa, uma estrela de nêutrons (suportada pela pressão da degeneração de nêutrons) ou um buraco negro pode vir a se formar.

    Fonte: Wikipédia.

Favo

Você é a marca de café

neste sofá obsoleto

O sussurro que se dissipa…

Um fim de tarde, cafuné,

O último soneto

que um beijo antecipa.

Frisson! O súbito torpor

que assenhora a aorta.

O astuto senhor

desliza pela porta…

Na janela, alvorada.

A lascívia retornou

Entrego-me, devorada,

por parte daquilo que sou.

Memorial de um Sati

Há um desconhecido vazio que insiste em habitar minhas entranhas. Há um silêncio, distante e vinho, que cerca meus lábios. Beija-me, para que saiba que lhe amei. Enreda meu estranho ser, suas digitais afogadas em meu tecido. Trance elogios, enraíze-se em meu cérebro já expirado. Torne cada simples ato em uma ode. Eternize-me com véus quentes de nostalgia cítrica. Faça da bruxa uma repulsiva deusa, batize todas as insanidades com este poço de lágrimas.

E, antes que se preencha, deixe-me. Suspenda o coro. Que a cômoda escuridão possua o recipiente e, finalmente, pacifique-me. O horizonte lentamente se aproxima. Minha voz, definhada, adormece junto às pálpebras baixadas. Beija-me, uma última vez.

Route

Eu acordo. O teto simétrico me encara, suas severas sombrancelhas no canto do quarto. Minhas mãos piscam. O dia me enclausura, novamente. Busco forças para romper a relação com a cama, mas há uma inércia que se apodera de tudo: o piso morno; os fios avulsos; a inanição de minha carcaça sobre meu caixão, repleto de espuma e penas. Nele ficaram todas as fracassadas tentativas de voos mais altos. Cabulo-me.

Alto torpor. Tento me sufocar com o travesseiro, entretanto, ainda sofro de uma infindável sensação de incapacidade. Seria mais fácil deixar que o mofo das noites mal dormidas me consuma. As penas rastejam pelas paredes. Tropeço em todas os insanos ensaios de me dar um fim e em qualquer semântica que faça de minha vida uma incógnita respeitável.

Há um insuportável e esmagante sentimento de que tudo foi abandonado. Imóvel, dentro um veículo em alta velocidade. Não há destino. O vento assola minhas narinas. Fervente atrito com todo o vazio que me habita. Não tenho mais forças para lutar. Satelites me orbitam. O mundo se veste, a costura do lado errado. Fecho os olhos. Abandono meu corpo, lentamente. Deixo que se dissolva ao final da tarde. Deixo que queime…

Eu acordo.